A escolha de Manon Bannerman para o Katseye parece quase obra do destino. Mais de 120 mil pessoas se inscreveram para a Dream Academy, o programa de treinamento que formou o grupo de seis integrantes. A formação final veio de 20 finalistas cujas jornadas foram registradas em um reality show onde provar o próprio valor — tanto para os colegas quanto para os fãs que assistiam em casa — era fundamental. A diretora de elenco descobriu Bannerman nas redes sociais e a convidou para uma audição. Ela não tinha nenhum treinamento prévio ou experiência profissional, mas ninguém podia negar que a garota tinha algo especial.
Por pura sorte, destino ou alinhamento dos astros, Bannerman embarcou em uma experiência que apenas uma porcentagem ínfima de pessoas compreende. Ela foi descoberta na Suíça e lançada ao cenário mundial ao lado de Daniela Avanzini, Lara Raj, Megan Skiendiel, Sophia Laforteza e Yoonchae Jeung. É evidente que, para o grupo, existe um conforto inerente à adaptação conjunta a essa realidade atípica. Elas vivenciaram um aumento no ódio e nas ameaças de morte desde a estreia em 2024, mas seria ainda mais difícil suportar isso como artistas solo.
Mesmo assim, Bannerman enfrenta um isolamento específico por ser a única integrante negra do Katseye. Nesse sentido, as pessoas que mais compreendem sua experiência sequer fazem parte da mesma banda.
No último fim de semana, as gravadoras anunciaram que Bannerman se afastaria temporariamente do Katseye para se concentrar em sua saúde e bem-estar, de acordo com um comunicado publicado em uma plataforma online. Em uma mensagem separada para os fãs, a cantora de 23 anos explicou a situação, escrevendo: “Estou saudável, estou bem e estou cuidando de mim mesma… Às vezes, as coisas acontecem de maneiras que não controlamos totalmente, mas confio no panorama geral”. Enquanto os fãs interpretaram as entrelinhas e especularam sobre se essa foi uma decisão amigável, um grupo de apoio emocional formado por mulheres se uniu em torno de Bannerman.
“Nós te vemos”, escreveu Melody Thornton, em uma rede social, onde compartilhou uma foto de Bannerman, que curtiu a publicação. Durante os momentos mais difíceis de Thornton em seu próprio grupo, ninguém disse o mesmo para ela. “A única coisa que eu sempre tinha em mente era: ‘Você não pode errar. Você tem que se manter firme porque você é a garota negra. As pessoas sabem disso, as pessoas veem isso e querem te ver vencer, então você precisa superar qualquer adversidade – seja ela qual for’”, disse à revista em 2024. “Eu nem sempre sabia se estava sendo vista.” Em certo momento, ela começou a ter ataques de pânico e desenvolveu inseguranças por ser rotulada como o “elo mais fraco” do grupo. Mesmo assim, Thornton não revelou suas dificuldades para ninguém, disse, “porque eu não queria que ninguém dissesse que eu era preguiçosa ou que estava inventando coisas”.
A declaração é quase exatamente o que Bannerman disse há algumas semanas. “Ser chamada de preguiçosa, especialmente sendo uma garota negra, não é justo”, disse, comentando sobre as críticas que vem recebendo desde o programa, onde perdeu ensaios por estar doente. “Agora sinto que preciso sempre me esforçar mais para provar algo, mesmo que na verdade não precise.”
Bannerman perdeu apenas um show da turnê de estreia da banda, que terminou em dezembro. No próximo mês, o Katseye tem apresentações marcadas em três edições do Lollapalooza, incluindo no Brasil, em 22 de março, antes de sua estreia no Coachella em abril. Mesmo que a saída de Bannerman do grupo seja apenas temporária, a repercussão em torno de sua ausência pode deixar marcas.
“Os grupos são formados e cada membro é escolhido porque tem algo especial a oferecer e porque todos os membros juntos criam um equilíbrio, então acho que vai ser interessante navegar sem ela por enquanto”, disse Makhyli Simpson, integrante do grupo feminino, que teve vida curta, em uma recente live online.
“Só espero que ela esteja bem, seja qual for a decisão que tomar daqui para frente. Sei de toda a pressão que isso representa, especialmente por ser a única mulher negra do grupo, e sinto que ninguém sabe como é isso até estar na pele dela.” O grupo se separou em 2024, cinco anos depois de ter sido descoberto nas redes sociais. “Aceitamos que existem coisas que estão fora do nosso controle”, disse o grupo na época. A declaração reflete o que Bannerman compartilhou.
No fim das contas, qualquer grupo formado por uma empresa de entretenimento acaba sendo tratado como os produtos que deveriam vender. O Katseye ainda nem lançou seu álbum de estreia, mas já foi posicionado como um verdadeiro outdoor ambulante para diversas marcas. Elas não estão vendendo discos. Estão vendendo uma imagem — uma imagem que não se sustenta sem Bannerman.
“As pessoas querem ver diversidade”, disse a cantora em 2025. “As pessoas querem se ver representadas na TV, em outdoors. E eu realmente espero que as pessoas em posições de poder vejam isso, percebam que funciona e implementem essa ideia.” Embora a indústria da música possa vê-las como peças e produtos, essas mulheres continuam sendo pessoas.
Os grupos femininos são construídos sobre uma percepção idealizada de união e irmandade que nem sempre é interseccional. Os poderosos nunca souberam muito bem o que fazer com mulheres negras nesses ambientes.
Quando adolescente, Normani entrou para o grupo junto com outras quatro garotas que também fizeram audições como solistas em um programa de TV. Elas terminaram em terceiro lugar e foram prontamente lançadas como a próxima grande sensação do pop. Normani sempre exalou a mesma qualidade de estrela natural que atraiu os produtores para Bannerman. Sua presença por si só chamava a atenção. Mesmo assim, ela foi deixada de lado. “Eu não conseguia cantar de verdade no grupo. Eu me sentia ignorada”, disse Normani em uma entrevista em 2021.
Normani também enfrentou o racismo virulento de fãs do grupo e teve até mesmo experiências racistas dentro dele. Em 2019, posts racistas que uma integrante do grupo escreveu quando adolescente ressurgiram na internet. “Foi devastador que isso viesse de um lugar que deveria ser um refúgio seguro e uma irmandade, porque eu sabia que, se os papéis se invertessem, eu defenderia cada uma delas sem hesitar”, disse Normani em 2020. No fim, ela afirmou: “Elas não souberam como me apoiar da maneira que eu precisava porque não era a experiência delas, e porque quando elas olham para mim, não me enxergam”. Em meio às especulações sobre o futuro de Katseye, Normani começou a seguir Bannerman em uma rede social.
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