“A psicodelia representa uma dissidência psicotrópica do surrealismo e do dadaísmo”, afirma Lúcio Maia, guitarrista de 55 anos e fundador da Nação Zumbi, que recentemente lançou seu segundo álbum solo, intitulado homônimamente. Para Lúcio, essa não é apenas uma frase impactante; é um princípio que guia sua vida, arte e trajetória profissional. Ele comenta: “O dadaísmo representa uma ruptura psicológica significativa com padrões estabelecidos, a ideia da Matrix, da igualdade e do conformismo”, durante uma conversa nos estúdios da Rolling Stone Brasil.
Conforme explica, o surrealismo vai ainda mais longe, rompendo completamente com a norma e com a obrigação de um entendimento comum. “Essa quebra de padrões sempre fez parte do nosso comportamento como artistas desde o primeiro álbum da Nação, lançado em 1994”, ressalta.
O novo disco, Lúcio Maia (2026), composto por oito faixas instrumentais, é uma celebração de psicodelia, diversidade sonora e futurismo. As guitarras se destacam com timbres únicos, enquanto os arranjos apresentam composições inspiradas em uma variedade de gêneros, criando um mosaico musical voltado para o futuro.
Visão voltada para o futuro sem esquecer as raízes
“O futurismo propõe uma visão voltada para o futuro, mas exclui radicalmente o passado — como a destruição de museus. Essa não é minha perspectiva”, explica Lúcio.
Ele valoriza a importância de olhar adiante, afirmando: “Não me consideraria um músico bem-sucedido se ficasse preso ao passado — essa é a minha definição de sucesso. Reconheço que muitas bandas optam por repetir seus conceitos por conforto e isso não me incomoda.” Contudo, ele busca constantemente romper essa ligação entre passado e presente: “Eu prefiro olhar para frente sem esquecer minhas origens”.
Três décadas de carreira e a necessidade de pausa
No entanto, antes de retomar esse olhar otimista sobre o futuro, Lúcio precisou fazer uma pausa. Após 30 anos na estrada, ele se sentiu um pouco esgotado. A Nação Zumbi nunca teve férias reais; mesmo entre 2008 e 2013, quando saiu da banda, ele seguiu em turnê com Marisa Monte. Em 2020, após deixar permanentemente a Nação, ele se tornou mais recluso. Em 2019, havia lançado um disco solo homônimo que teve uma recepção bastante positiva. Porém, sentiu que precisava se afastar do ritmo frenético de lançamentos e shows: “Decidi dar um tempo na ideia de produzir discos”.
A faixa inicial do projeto é “Cogumelo de Vidro”, que estabelece o tom do disco. Quando composta, Lúcio não imaginava que ela seria a primeira canção. O álbum foi então moldado para seguir uma narrativa coerente ao longo do tempo. “As composições surgem continuamente”, afirma. A música tem cerca de oito minutos e é dividida em três partes distintas que contam histórias diferentes. Quando decidiu incluí-la no álbum, ele optou por condensar cada segmento: “Reformulei os trechos até chegar à versão final”. Isso resultou em uma abertura poderosa para o disco: “Ela reflete diversas influências que acumulei ao longo da vida — desde baião até surf music, reggae, dub e funk. O único gênero ausente é metal”. Cerca de outra faixa notável é “L’amour”, que introduz a única voz no disco através de uma narração em francês. Essa canção é uma homenagem ao icônico Serge Gainsbourg, cuja influência permeia sua obra artística: “Gainsbourg foi um artista multifacetado — músico, compositor e roteirista — cuja estética visual impressionante se reflete até na casa dele em Paris.” “Era um cantor excepcional e pianista talentoso. Iniciou sua carreira tocando em bares e explorou todos os estilos musicais possíveis. Ninguém conseguiu ser como ele”, elogia Lúcio. “Ele merece todas as homenagens possíveis devido à sua grandeza artística”. A faixa “Fetish Motel”, por sua vez, evoca uma atmosfera cinematográfica reminiscentes dos filmes noir dos anos 60. Para Lúcio, não se trata apenas de referenciar um filme específico, mas sim toda uma estética cinematográfica: “Sou fascinado pelo cinema expressionista alemão dos anos 20 e 30. A guitarra deve expressar melodias assim como os filmes utilizam suas ferramentas limitadas para contar suas histórias”. Lúcio Maia aspira fazer da sua música um estímulo sensorial mais do que apenas técnica apurada. Como saber se atingiu esse objetivo? Ele responde: “Leva tempo para desenvolver essa habilidade; você precisa ter experiências para alcançar essas conquistas.” A experiência no trabalho musical e nas trilhas sonoras ampliou consideravelmente sua criatividade ao permitir-lhe transformar ideias iniciais em composições técnicas finais: “Aprendi muito nesse processo.” Além disso, busca criar algo tão distintivo que as pessoas possam reconhecer imediatamente ao ouvir: “É desafiador obter essa identidade sonora”. A prática constante leva à maestria na produção musical; no entanto, captar aspectos sensoriais requer vivências ricas: ouvir muita música, ler diversos livros e assistir filmes variados são essenciais nesse processo criativo. Lúcio Maia continua avançando sem repetir suas raízes ou permanecer na zona de conforto; seu olhar está sempre voltado para frente sem esquecer sua história pessoal. A psicodelia aparece como uma dissidência do surrealismo e dadaísmo — um verdadeiro rompimento com padrões convencionais. Com trinta anos dedicados à música e aos seus 55 anos vividos intensamente, ele agora apresenta essa bagagem no novo disco homônimo. Esse trabalho brinca com texturas sonoras enquanto vocaliza melodias inspiradas pelo cinema expressionista e homenageia artistas como Luiz Gonzaga e Lee Perry. A nova obra representa um estimulante sensorial robusto em sua carreira promissora — sem dúvida será relevante por muitos anos vindouros. +++LEIA MAIS: Rael discute reencontro com MC adormecido: ‘Ele estava por aí tirando onda’ +++LEIA MAIS: Vitor Kley fala sobre faixas descartadas dos grandes álbuns: ‘Talvez sejam tão interessantes quanto as lançadas’ A postagem sobre Lúcio Maia comentando seu novo álbum homônimo destaca que “Psicodelia é uma dissidência psicotrópica do surrealismo e do dadaísmo”. Analisando o álbum em detalhes
Música como experiência sensorial

