Maria Bethânia celebra seus 80 anos nesta quinta-feira, 18 de junho. Nascida em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, em 1946, a cantora teve sua vida transformada aos 18 anos após receber um convite decisivo. A renomada Nara Leão, ícone da bossa nova, conheceu Bethânia durante uma viagem à Bahia e a escolheu para substituí-la no espetáculo Opinião. Nesse projeto, que contava com as performances de Zé Keti e João do Vale, sob a direção de Augusto Boal e a direção musical de Dori Caymmi, no Teatro de Arena de Copacabana, Bethânia aceitou o desafio em fevereiro de 1965, dando início a uma carreira marcante na música brasileira.
A peça Opinião, que estreou em dezembro de 1964, já era um sucesso tanto entre o público quanto entre os críticos, embora enfrentasse críticas por seu tom panfletário e subversivo. A proposta inovadora do espetáculo consistia em reunir no mesmo palco “um nordestino, um carioca pobre e negro da favela e a mais ‘patricinha’ das cantoras da Zona Sul“, conforme descrito no livro Memórias da Ditadura. Todos interpretavam músicas que abordavam a desigualdade social em um contexto político complexo. Com a entrada de Bethânia, o show ganhou uma nova dimensão, resultando no seu primeiro grande sucesso: “Carcará”, composição de João do Vale e José Cândido. Sua voz forte e presença marcante se adequaram perfeitamente ao repertório engajado da produção.
A princípio, o compromisso com o espetáculo era para durar apenas cinco dias, mas acabou se tornando uma nova trajetória. Em entrevista ao Globo Repórter, Bethânia relembrou: “Disseram que seriam cinco dias. Mas Nara não voltou. Tive que voltar para Santo Amaro para explicar aos meus pais que não seriam cinco dias, e sim a minha vida.” O pai dela, conhecido como seu Zezinho, deixou uma impressão duradoura: “Se você for feliz, a responsável é você. Se for infeliz, o culpado sou eu.”.
A mudança para o Rio de Janeiro também teve um impacto significativo na família Veloso. Após a decisão de Bethânia se mudar, seu irmão mais velho, Caetano Veloso, também decidiu arriscar-se na cidade. A cantora afirmou: “Essa coisa da música foi ele quem trouxe muito para mim. Mas a música, principalmente, foi ele, porque ele tinha os amigos, conhecia o Gilberto Gil, que já cantava na televisão.” Assim, nomes como Gil, Edu Lobo e Caetano tornaram-se alguns dos compositores cujas obras ela apresentaria ao longo da carreira; além disso, Gal Costa fez sua estreia em disco ao dividir vocais com Bethânia na faixa “Sol Negro”, do álbum lançado em 1965.
A carreira que começou naquele palco improvisado em Copacabana levou Bethânia a ser precursora em diversos aspectos: em 1978 tornou-se a primeira cantora brasileira a vender mais de 1 milhão de cópias com um só álbum, intitulado Álibi. Mesmo após alcançar tal feito impressionante, ela nunca abandonou o estilo dramático que caracterizou sua entrada no cenário musical com “Carcará”. A recitação poética entre as canções e sua conexão profunda com o cancioneiro nordestino tornaram-se suas marcas registradas. Décadas depois, ela ainda mantém rituais antes dos shows — chegando quatro horas antes para se preparar espiritualmente com orações e pedidos de licença “aos deuses da cena e a quem me protege” antes de subir ao palco. Uma simples oferta inicial de cinco dias converteu-se em uma vida inteira dedicada à música.
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A publicação sobre o show inesperado que transformou a trajetória de Maria Bethânia foi divulgada.

